Inflação é maior para famílias de baixa renda
11 de abril de 2010 | Autor: Dieese
Fonte: DIEESE

A inflação para o conjunto das famílias do município de São Paulo, em março, foi de 0,47%, ou seja, 0,12 ponto percentual menor que a de fevereiro (0,59%), segundo o Índice do Custo de Vida – ICV - calculado pelo DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Socioeconômico.

No entanto, a taxa do mês foi muito diferenciada segundo os estratos de renda, com variação mais expressiva para as famílias de menor poder aquisitivo, reunidas no estrato 1 (0,89%), e menor à medida que o nível de rendimento cresce, ficando em 0,62%, para as famílias com nível intermediário de rendimento (estrato 2) e de 0,32%, para as de maior poder aquisitivo, pertencentes ao estrato 3.

Os maiores aumentos foram registrados nos seguintes grupos: Alimentação (1,54%), Saúde (1,25%) e Habitação (0,46%), que em conjunto contribuíram com 0,70 pp, no cálculo da taxa de março, enquanto o grupo Transporte (-1,65%) colaborou negativamente com -0,27 pp.

A alta da Alimentação (1,54%) apresentou taxas distintas entre seus subgrupos, sendo maior para os produtos in natura e semielaborados (2,41%), ficando em 0,98% para a indústria alimentícia e 0,65%, na alimentação fora do domicílio.

As principais variações nos preços de produtos in natura e semielaborados ocorreram para:

• Legumes (31,00%) – a forte elevação resultou de aumento extraordinário no tomate (71,48%) e taxas elevadas no quiabo (15,29%) e pimentão (13,68%);

• Raízes e Tubérculos (7,41%) – houve alta nos preços da batata (11,66%), cebola (6,35%), alho (5,66%) e mandioquinha (8,89%);

• Frutas (3,24%) – os maiores aumentos foram apurados para pêssego (29,14%), manga (9,35%), melão (9,12%), mamão (4,14%) e laranja (3,69%) enquanto houve queda na pêra (-3,92%);

• Grãos (1,13%) – foi registrado crescimento acentuado no feijão (13,29%) e baixa no arroz (-2,06%) e

• Hortaliças (-7,97%) – como seus produtos subiram muito nos dois primeiros meses deste ano, devido à ocorrência de fortes chuvas, em março com a melhora do tempo, observou-se queda generalizada nos valores de todas as hortaliças.

No subgrupo referente à indústria da alimentação (0,98%), merece destaque a alta no preço do açúcar (9,50%) e do leite longa vida (8,45%) e a queda nos óleos (-2,94%). A alimentação fora do domicílio (0,65%) apresentou taxas distintas nos itens refeição principal (0,35%) e lanches (1,06%).

O segundo grupo que mais pressionou a inflação, em março, foi a Saúde (1,25%) com contribuição de 0,17 pp no cálculo da taxa deste mês. As variações, de seus subgrupos, foram bastante distintas, com aumento na assistência médica (1,54%) e estabilidade nos medicamentos e produtos farmacêuticos (0,05%).

Na Habitação (0,46%), a maior taxa foi observada no subgrupo locação, impostos e condomínio (0,89%), conseqüência principalmente do aumento de 25% no IPTU, que foi distribuído em 10 parcelas com variação de 2,22% ao mês. A operação (0,29%) e conservação do domicílio (0,32%) tiveram pouca alteração em seus valores.

O grupo Transporte (-1,65%) apresentou retração em seus preços, em março, com contribuição negativa no cálculo do ICV da ordem de -0,27 pp. A queda resultou de retração no subgrupo individual (-2,54%), por conta do recuo no preço do álcool (-10,14%) e da gasolina (-1,62%).

O transporte coletivo teve pequena variação positiva, resultado dos reajustes ocorridos nos ônibus intermunicipais e de um resíduo de aumento do metrô e dos trens.

 

Índices por estrato de renda

Além do índice geral, o DIEESE calcula ainda mais três indicadores de inflação, segundo tercis da renda das famílias paulistanas. Em março, a taxa foi maior para as famílias mais pobres e reduziu-se com o aumento da renda. Assim, para o estrato 1, que reúne as famílias com renda média = R$ 377,49, a alta chegou a 0,89%; para as famílias com nível intermediário de rendimento (renda média = R$ 934,17), pertencentes ao estrato 2, a taxa foi de 0,62%; para aquelas com maior poder aquisitivo (renda média = R$ 2.792,90), o aumento ficou em 0,32%.

As taxas de março em relação às de fevereiro apontaram comportamentos distintos. Assim, para

o 1º estrato observou-se aumento de inflação de 0,28 pp, para o 2º praticamente não se detectou diferença significativa (-0,01 pp) e para o 3º houve queda de 0,26 pp.

 

Impacto dos preços nas famílias, de acordo com seus gastos

As diferentes taxas por estrato apuradas em março resultaram da maneira como os preços se comportaram no mês, associados à forma como as famílias pertencentes a cada estrato de renda distribuem seus gastos.

A composição dos gastos das famílias, segundo seu poder aquisitivo, revela formas de despender muito distintas. No entanto, dos 10 grupos de consumo que compõem o ICV, cinco deles respondem por entre 88% e 89% das despesas, em qualquer das faixas de renda levantadas pelo DIEESE.

Como as maiores diferenças nas distribuições das despesas são detectadas, principalmente, entre o 1º e o 3º estrato de renda, esta análise dos pesos se restringirá a confrontar as participações percentuais dos gastos das famílias de baixo e alto poder aquisitivo.

Assim, as famílias do estrato 1 gastam proporcionalmente mais com Alimentação (36,7%) e

Habitação (25,2%), grupos que respondem, assim, por 61,9% de suas despesas, do que aquelas do 3º estrato que destinam 45,8% de seu orçamento para estes grupos, ou seja, 23,6% com Alimentação e 22,2% com Habitação, respectivamente.

Por outro lado, as famílias com maior nível de rendimento, estrato 3, destinam 43,7% de seu orçamento para Transporte (17,6%), Educação (10,4%) e Saúde (15,7%). No caso das famílias de menor renda revelam comportamento distinto, pois, apenas 26,0% de seus gastos são destinados a estes grupos, ou seja: 11,5% para o Transporte, 3,8% para Educação e 10,7%, para a Saúde.

Variações de preços em grupos como Alimentação e Habitação, em princípio, afetam mais as famílias que ganham menos e alterações de valores nos gastos com Transporte, Educação e Saúde devem impactar mais àquelas com maior poder aquisitivo.

 

Resultados da inflação nas taxas por estrato

Os aumentos verificados na Alimentação, que tiveram origem, em grande parte, nos produtos in natura e semielaborados, afetaram mais as famílias de menor rendimento, devido ao peso deste subgrupo na composição de seus orçamentos domésticos. Assim, as contribuições nos cálculos das taxas por estrato de renda apresentam uma correlação negativa com o poder aquisitivo das famílias:

estrato 1 (0,68 pp), estrato 2 (0,54 pp) e estrato 3 (0,32 pp).

Comportamento inverso foi observado na Saúde, ou seja, à medida que a renda cresce, as famílias foram mais afetadas pelos aumentos ocorridos na assistência médica, uma vez que o subgrupo dos medicamentos e produtos farmacêuticos não teve alteração em seus valores. Neste mês, as contribuições por estrato de renda foram crescentes com o poder aquisitivo: 0,12 pp. para o 1º, 0,15 pp. para o 2º e 0,20 pp. para o 3º.

Na Habitação, embora as taxas tenham sido elevadas, os impactos por estrato de renda foram da ordem de 0,10 pp para o 1º e 2º estratos e ligeiramente maior para o 3º (0,11pp.).

A queda ocorrida no Transporte, que teve origem principalmente no subgrupo individual devido à diminuição no valor dos combustíveis, resultou em contribuições negativas para todas as famílias, sendo mais acentuada para as de maior poder aquisitivo e menor para as mais pobres: estrato 3 (-0,34 pp), estrato 2 (-0,21 pp) e estrato 1 (-0,05 pp).

 

Inflação Acumulada

Nos últimos 12 meses, entre abril de 2009 e março de 2010, o ICV apresentou alta de 5,79%.

Ao se considerar os diferentes estratos, as taxas anuais diminuem com o crescimento do poder aquisitivo: 6,17% para o estrato 1; 5,92% para o 2, e 5,67%, para o 3. Entre janeiro e março deste ano, a inflação acumulada é de 2,81%, sendo maior para os estratos iniciais: 1º (3,04%), 2º (3,10%) e ligeiramente menor para o 3º (2,64%).

 

Comportamento dos preços em 2010

Nos primeiros três meses deste ano, os grupos com taxas superiores à inflação (2,81%) foram:

Educação e Leitura (4,55%), Alimentação (4,10%), Transporte (3,74%) e Saúde (3,02%). Taxas negativas ou próximas a zero foram observadas nos grupos Vestuário (-1,28%), Equipamento Doméstico (0,12%) e Despesas Pessoais (0,49%).

O reajuste no grupo Educação e Leitura (4,55%) provavelmente não afetará a inflação no restante de 2010, pois é apenas no início de cada ano que as escolas costumam ajustar seus valores.

Os aumentos na Alimentação (4,10%) tiveram origem, principalmente, nos produtos in natura e semielaborados (6,36%) refletindo as consequências das fortes chuvas ocorridas neste primeiro bimestre de 2010, com taxas elevadas nos seguintes itens: legumes (44,91%), hortaliças (31,30%), frutas (11,64%) e grãos (9,35%). Os demais subgrupos registraram taxas menores, com variação de 2,16% para os produtos da indústria alimentícia e 2,79%, no caso da alimentação fora do domicílio.

No Transporte, as taxas foram distintas, com pequena variação para o individual (0,56%) e alta acentuada foi detectada no coletivo (11,64%). O aumento na Saúde (3,02%) teve origem na assistência médica, que subiu 3,71%, dado que os medicamentos e produtos farmacêuticos (0,30%) pouco variaram.

As pequenas variações em 2010 no Vestuário (-1,28%) e no Equipamento Doméstico (0,12%) resultam, em parte, as liquidações que normalmente ocorrem em todo o início de cada ano.

 

Comportamento dos preços nos últimos 12 meses

Os aumentos verificados nos últimos 12 meses deram-se de maneira bastante heterogênea entre os grupos, subgrupos e itens que compõem o ICV-DIEESE. Para uma inflação da ordem de 5,79%, as maiores altas foram apuradas nos grupos: Despesas Pessoais (9,18%), Transporte (7,01%), Alimentação (6,39%) e Saúde (6,23%). Com variações semelhantes ao índice geral, observou-se: Educação e Leitura (5,96%) e Habitação (5,71%). Taxas negativas foram detectadas nos grupos: Equipamento Doméstico (-1,72%) e Vestuário (-2,01%).

Nas Despesas Pessoais (9,18%), a taxa elevada deve-se ao grande aumento no subgrupo fumo e acessórios (21,60%), devido à alta do preço do cigarro (22,00%). O Transporte (7,01%) subiu de forma mais acentuada no subgrupo coletivo (12,36%) e menos no individual (4,78%).

Na Alimentação (6,39%), as taxas dos subgrupos dos produtos in natura e semielaborados (7,49%) e alimentação fora do domicílio (7,02%) foram altas e semelhantes, já a da indústria da alimentação (4,69%) foi bem inferior. Alguns produtos merecem destaque: açúcar (66,59%), alho (57,83%), tomate (56,79%), feijão (-16,14%) e óleo (-7,84%).

No grupo Saúde (6,23%), as taxas de seus subgrupos foram relativamente semelhantes, sendo menores para medicamentos e produtos farmacêuticos (5,93%) e maiores para assistência médica (6,32%).

Houve retração para os preços de Equipamento Doméstico (-1,72%) e Vestuário (-2,01%).

As maiores quedas ocorreram para rouparia (-4,07%), eletrodomésticos (-3,76%) e roupas (-3,34%).

 

Análise do comportamento dos preços nos últimos 15 meses

A taxa inflacionária do 1º trimestre do ano (2,81%) causou certa preocupação, dado ser bem superior a de igual período em 2009 (1,11%).

Porém, a análise do comportamento dos preços entre janeiro de 2009 e março de 2010 apontou que não se trata de um processo inflacionário generalizado. Para este estudo, os 594 itens componentes do ICV, foram classificados segundo sua taxa de variação de preço em três diferentes categorias:

1. Deflação: % de itens com taxas < -1%

2. Estável: % de itens com taxas entre ≥ -1% e ≤ 1%

3. Inflação: % de itens com taxas > 1%

 

Os resultados revelam que a maioria dos itens componentes do ICV apresenta comportamento estável, e nos três primeiros meses de 2010, as suas participações (51,3%, 60,6% e 56,7%) foram superiores às observadas no primeiro trimestre de 2009 (48,8%, 54,4% e 51,5%).

Embora tenham apresentado um desempenho mais estável neste ano frente à igual período de 2009, sua taxa inflacionária foi bem superior, pois incidiu em alguns bens e serviços que agravaram muito o cálculo do ICV, como: transporte coletivo, alimentação no domicílio e assistência médica. Esta análise sugere que os aumentos de preços não vieram a contaminar os valores praticados no mercado consumidor. O número de itens com comportamento inflacionário em 2010 (33,0%, 20,4% e 28,5%) foi percentualmente inferior ao observado em 2009 (33,8%; 24,6% e 32,5%), o que reforça o argumento de não-proliferação inflacionária.
Quanto àqueles com queda em seus valores (deflação), suas participações em 2010 (15,7%, 19,0% e 14,8%) foram menores que em 2009 (17,3%, 21,0% e 16,0%), colaborando para um maior índice de inflação neste ano.