O jogo pesado da sucessão na Previ
26 de maio de 2010 | Autor: Valor Econômico
Fonte: Valor Econômico

O velho cacoete de setores sindicais, de tentar macular a reputação alheia para defender interesses muito particulares, veio à tona no processo de definição dos novos dirigentes da Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (BB). A prática é antiga. Envia-se a integrantes do governo e a jornalistas documentos apócrifos, com falsas denúncias sobre uma determinada pessoa, esperando que, com isso, a autoridade se sinta constrangida a nomeá-la.

Intitulada "Informação Relevante", uma carta anônima foi enviada há alguns dias ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Fazenda e às diretorias da Previ e do BB. Nela, o vice-presidente de Cartões e Novos Negócios e Varejo do BB, Paulo Caffarelli, aparece como gestor de "passagem desastrosa" pela Previ. Além disso, é chamado - pecado mortal! - de "tucano". A primeira acusação não pegou, mas a segunda pode ter contribuído para tirar Caffarelli da presidência do maior fundo de pensão do Brasil e da América Latina. O "adjetivo" grudou nele feito tatuagem.

Caffarelli, que também preside a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito, era a primeira opção de Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, para substituir Sérgio Rosa no comando da Previ. Assim como o escolhido ao fim do processo - Ricardo Flores, vice-presidente de Crédito, Controladoria e Risco Global do BB -, Caffarelli é funcionário de carreira do banco há 29 anos. É um técnico na acepção ampla da palavra. E, por isso mesmo, alvo fácil de interesses sindicais contrariados.

Filho de um frentista do interior do Paraná, Caffarelli, a exemplo do irmão, é um daqueles brasileiros que ascenderam socialmente depois de entrar para o Banco do Brasil por meio de concurso público. Aos 46 anos, chegou a vice-presidente da instituição depois de 28 anos de carreira, um feito notável. Bendine pensou inicialmente em Caffarelli para a Previ, como poderia ter escolhido Flores desde o começo - do mesmo modo que Caffarelli, Flores tem carreira sólida no BB, tendo ingressado no banco como menor aprendiz.

Mas Caffarelli foi acusado, de forma covarde, de ter "vínculos" com os tucanos, o que levou ao veto do governo à sua indicação. Efetivamente, ele não tem essa ligação. E se tivesse, isso não faria dele um sujeito de caráter duvidoso, assim como não faria na hipótese de ele ser petista, coisa que ele também não é.

A carta apócrifa, enviada também a esta coluna, diz que, ao trabalhar na Previ entre 1999 e 2000, Caffarelli teria feito "maus negócios" ao investir R$ 500 milhões na Paranapanema e ao comprar debêntures de uma empresa ligada ao banco Marka, que fechou as portas em 1999. Acusou-se também o atual executivo do BB de vender R$ 500 milhões de ações da Itaúsa na véspera de a empresa anunciar "lucro recorde".

O problema da "denúncia" é que, nos dois anos em que passou na Previ, Caffarelli trabalhou na área imobiliária do fundo, portanto, longe das operações mencionadas no falso dossiê. Os detratores foram adiante - o ataque foi amplo, afinal, a ideia era que alguma nódoa pegasse no vice-presidente do BB. Desta vez, a acusação foi de tráfico de influência, envolvendo Marina Mantega, filha do ministro da Fazenda, Guido Mantega.

A carta enviada ao governo acusa Caffarelli de ser um "interlocutor" de Marina "para encaminhamento de seus pedidos no Banco do Brasil". Não foram explicitados que pedidos seriam esses, mas a ideia, aqui, é sugerir uma afinidade que nunca existiu. Os maganos lembraram-se, inclusive, de mencionar a marca e a cor do carro da filha do ministro que, segundo eles, teria "vaga cativa na garagem do prédio do BB na Avenida Paulista". Esta coluna apurou que Marina esteve naquela agência, conversando com Caffarelli sobre uma possível abertura de conta bancária. Simples assim. O resto é pura chantagem.

Desconfia-se que a sanha contra Caffarelli, e mais recentemente contra os executivos escolhidos para gerir a Previ - afinal, Bendine acabou nomeando outro técnico para o cargo -, tenha origem no movimento sindical. É difícil comprovar porque os documentos são apócrifos, embora exista uma forte suspeita sobre o afilhado político de um importante deputado do PT. Ocupante de um cargo relevante numa das empresas afiliadas do BB, ele teria sido preterido dentro do banco e estaria estrebuchando.

O fato é que o movimento sequer é político-partidário - ele procurou atingir, primeiro, o técnico; depois, a família de um ministro de Estado (do PT); daqui a pouco, também o presidente da República (já circulam em Brasília histórias muito mal contadas e, por isso mesmo, irreproduzíveis). Isso mostra que o sindicalismo de resultados não tem ideologia.

Falsas denúncias também foram disseminadas no início do governo Lula para barrar nomeações técnicas na Receita Federal e na Polícia Federal. Sindicalistas ligados ao PT não suportaram a ideia de ver Lula no poder sem que eles recebessem seu naco. Em alguns momentos, sindicatos e políticos também se unem para prestar serviço político-eleitoral, como no caso dos aloprados, autores do falso dossiê criado para tentar desmoralizar José Serra na campanha ao governo de São Paulo, em 2006.

*Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras.