Instituições e sindicatos criticam alta do juros pelo Copom
10 de junho de 2010 | Autor: Valor Econômico
Fonte: Valor Econômico

Instituições setoriais e sindicatos reagiram mal, mais uma vez, à alta da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom). O retorno da taxa básica de juro ao patamar dos dois dígitos, depois da segunda elevação consecutiva no ano, não era necessário diante do contexto da economia do país e limita o desenvolvimento brasileiro, na opinião das entidades.

Em compensação, a alta ficou em linha com as projeções dos analistas do mercado. O Copom decidiu elevar a taxa de juros básica Selic em 0,75 ponto percentual, para 10,25% ao ano, sem viés.

"Não há motivos para o aumento da Selic, dado que a inflação está recuando e a economia deverá sofrer uma natural acomodação no segundo semestre, sobretudo pela retirada de incentivos fiscais", afirmou o presidente da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), Orlando Diniz.

Para o presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Alencar Burti, quem vai arcar com o aumento dos juros sobre a dívida pública serão os empresários e os consumidores brasileiros. "Fico em dúvida se essa medida pode contribuir de forma positiva", disse Burti, em nota.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por sua vez, afirma que haveria espaço para que o ciclo de alta dos juros fosse mais curto e de menor intensidade do que o inicialmente previsto pelo mercado. A CNI lembra que, dentro dos resultados do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre, a elevação dos investimentos foi mais intensa do que o aumento do consumo das famílias.

"A maturação desses investimentos aumentará a capacidade de produção da indústria, o que reduzirá eventuais pressões inflacionárias no futuro", projetou a Confederação.

O argumento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também dá ênfase ao fato de que a pressão inflacionária verificada nos primeiros meses do ano reflete apenas "ajustes pontuais e sazonais". "O ciclo de aumentos na taxa básica de juros (Selic) contraria a lógica dos números da economia brasileira e prejudica o desenvolvimento", afirmou a Fiesp.

As organizações sindicais foram mais duras. "A decisão equivocada do Copom, de aumentar os juros básicos da economia, é um balde de água fria na aquecida economia brasileira", afirmou o presidente em exercício da Força Sindical, Miguel Torres, classificando como "insana" a decisão de aperto monetário.

Já a Central Única dos Trabalhadores (CUT) definiu a elevação da Selic como um desestímulo aos investimentos produtivos e uma atitude prejudicial às contas públicas. A CUT afirmou ainda que existe uma forte pressão por parte do setor financeiro e seus representantes para que o ciclo aperto permaneça, acusando o Copom de fazer uma "política assistencialista para banqueiros".

A maioria dos analistas do mercado, por outro lado, não criticou e já esperava a ação do Banco Central. A LCA Consultores, por exemplo, afirmou que, com a decisão, o BC evitou "agregar um elemento adicional de incerteza num mercado que já vem operando sob volatilidade".

Segundo a empresa, se a autoridade monetária reduzisse o ritmo de elevação nos juros, o mercado poderia observar uma insegurança por parte do BC com relação aos potenciais impactos da crise europeia sobre a economia brasileira.

Se o Copom, em contrapartida, decidisse por uma intensificação no ritmo de aperto monetário, a medida poderia ser interpretada pelos mercados como sinal de que a autoridade brasileira estaria subestimando os potenciais impactos da crise europeia, podendo "exagerar na dose do remédio amargo".