Preocupação com a falta de profissionais
14 de agosto de 2010 | Autor: Valor Econômico
Fonte: Valor Econômico

A indústria naval emprega mais de 46 mil pessoas, e esse contingente deve aumentar para 60 mil em 2014. Como cada emprego direto nos estaleiros gera uma média de quatro empregos na indústria fornecedora e de serviços, os postos indiretos devem pular de 180 mil para 240 mil no período, segundo o Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval).

Boa parte das vagas poderá ser preenchida por pessoas que trabalharam nos tempos áureos da indústria naval e depois migraram para outros setores. Agora, com seu renascimento, os trabalhadores começam a ser reabsorvidos. Algumas empresas estão "importando" dekasseguis brasileiros que foram para o Japão em busca de trabalho. É o caso do Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Pernambuco. Em dezembro de 2009, a empresa começou a selecionar 200 candidatos com experiência na indústria naval e construção de plataformas petrolíferas.

Mas há gargalos maiores em outros segmentos. A frota própria da Transpetro deve passar de 52 navios para mais de cem em 2014 com o Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef), que, segundo a empresa, abrirá 40 mil empregos diretos e outros 160 mil indiretos. Para tripular esses navios, serão necessários mais de 2 mil profissionais – 850 deles oficiais. Todos precisarão ser admitidos por concurso público, com salários que podem variar entre R$ 5 mil e R$ 20 mil. A marinha mercante, impulsionada pelo comércio exterior, também deve demandar essa categoria de profissionais.

Já a Petrobras precisará de trabalhadores de 185 categorias para preencher mais de 200 mil novos empregos. Desse total, serão necessários pelo menos 60 mil engenheiros para exploração de petróleo dos campos do pré-sal. Ocorre que o modelo educacional atrai apenas 400 mil jovens para os vestibulares de engenharia a cada ano e apenas 8% (32 mil) se formam.

"O número representa metade do que precisamos para nos mantermos competitivos em diversos segmentos", diz Carlos Cavalcante, superintendente do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), criado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), para promover a interação entre, indústria e universidade. Para ele, é fundamental que não apenas se forme esse contingente adicional, mas se viabilizem especializações para que o grupo possa atuar em um mercado competitivo. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) avalia que, de todos os desafios que qualificação profissional no curto prazo, o ensino de engenharia é o maior.

Essa deficiência levou a Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) e o Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp) a criar um Instituto de Ensino Superior na área de engenharia de inovação. "Estamos na fase de definição dos cursos que vão compor esse instituto, que não terá fins lucrativos", diz Fernando Palmezan Neto, diretor do Seesp. A idéia é formar engenheiros qualificados, que tenham características que o mercado precisa.

O sindicato vem conversando com empresas, entre elas a Petrobras, para definir, inclusive, parcerias que permitam viabilizar o projeto. Palmezan avalia que o instituto poderá iniciar as atividades em 2012. "Precisamos estimular a demanda de alunos que se interessam pela área e dobrar o número de formandos. Dessa forma, não precisaremos importar mão de obra."

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais (Inep), existem no país 1.406 cursos de engenharia, 40% em instituições públicas e 6% em privadas. Entre os cursos mais procurados estão engenharia elétrica e civil, com 12% e 11%, respectivamente. Para José Roberto Cardoso, professor de engenharia elétrica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, há deficiências em todas as áreas de engenharia no Brasil. "Precisamos estimular a procura do curso de engenharia pelos jovens, porque o mercado tem demanda suficiente para suprir o dobro de formandos na área por ano."

Numa outra frente, o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp), que integra o Plano Nacional de Qualificação da Petrobras, vem desenvolvendo ações voltadas para solucionar a falta de profissionais para atender às demandas geradas pelos empreendimentos previstos nas áreas de petróleo e gás.

O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), que é a maior entidade executora dos cursos do Prominp, destinará neste ano R$ 1,6 bilhão à educação profissional e tecnológica e a serviços técnicos e tecnológicos. Esse montante se refere a 81% da previsão de receitas de contribuições do Sistema SENAI para 2010 (R$ 2,03 bilhões). Entre abril de 2007 e março deste ano, foram realizadas 34.957 matrículas em 61 cursos de formação inicial, técnica e de pós-graduação em 13 Estados. "Estão previstos investimentos superiores a R$ 30 milhões apenas na ampliação das estruturas e equipamentos para atendimento à demanda do Prominp no período de 2010 e 2011", conta Regina Torres, diretora de operações do SENAI.

Na próxima etapa do Prominp, entre novembro deste ano e julho de 2011, está prevista a realização de 37 mil matrículas em cursos para a área de petróleo e gás em 35 centros tecnológicos e de educação profissional do SENAI em 18 Estados.

Preocupados com a qualificação e capacitação de seus trabalhadores, a Rede Empresarial do Petróleo, Gás e Energia do Paraná (RedePetro-PR) fechou, no início de julho, parceria com o grupo educacional paranaense Uninter para formação de profissionais. No Paraná, estima-se que existam entre 16 mil e 20 mil vagas em pequenas e médias empresas fornecedoras de produtos e serviços para a Petrobras. Isso sem considerar os trabalhos referentes ao pré-sal.

A questão e que a Petrobras exige qualidade nos produtos de seus fornecedores e boa gestão administrativa, trabalhista e ambiental. A estatal atribui notas de um a dez nos seus processos de qualificação. Se a candidata tiver nota um em meio ambiente, por exemplo, nem é chamada. "Daí que demanda corporativa de capacitação técnica e profissional está cada vez maior", diz Moacir Paranhos, diretor de operações da Uninter, que tem 140 mil alunos no Brasil.

Em julho, o Uninter apresentou para a RedePetro Brasil – 15 RedesPetro, que representam mais de 750 empresas que fabricam bens ou prestam serviços aos segmentos de exploração, produção, refino, transporte e distribuição de petróleo e gás natural – o Projeto Inovador de Capacitação, que servirá de base para elaborar cursos para as empresas. Num primeiro momento, serão atendidas empresas do Sul. Mas os parceiros têm intenção de ampliar o programa para atender às redes de outros Estados.

Fonte: Valor