Remuneração inicial em baixa
03 de outubro de 2010 | Autor: Tribuna do Norte
Fonte: Tribuna do Norte

Se os dicionários mostrassem o significado de mercado de trabalho para o Rio Grande do Norte, a palavra que viria em primeiro lugar seria aquecimento. O estado saiu de um 2009 marcado por um ritmo lento em termos de contratações para atravessar um 2010 já configurado como de plena retomada. Para se ter ideia da mudança no cenário, se o número de demitidos superou em quase 5 mil o de admitidos de janeiro a agosto do ano passado, este ano o movimento tem sido inverso e, no mesmo período, mais de 18 mil pessoas conseguiram uma oportunidade com carteira assinada. Oportunidades que pagaram, no entanto, “pouco”, se considerado o contexto nacional. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego  traduzem essa realidade, apontando que o salário médio de admissão no mercado potiguar foi de R$ 637,03, sem descontos, até agosto. O valor ficou abaixo da média brasileira, de R$ 828,58, e só foi maior que o registrado no mercado de trabalho da vizinha Paraíba (R$ 625,49).

Júnior SantosSem muitas exigências de pré-requisitos ou qualificação, trabalhadores da agricultura sofrem com o salário inicial mais baixo entre as atividades do Rio Grande do NorteSem muitas exigências de pré-requisitos ou qualificação, trabalhadores da agricultura sofrem com o salário inicial mais baixo entre as atividades do Rio Grande do Norte
“O nível salarial está compatível com o perfil, com o grau de maturidade da economia”, disse uma analista à Tribuna do Norte. No RN, o valor médio de admissão é puxado para baixo porque a economia é movida, em grande parte, por atividades como agropecuária, comércio e uma indústria de transformação tecnologicamente ainda considerada simples e que exige, para o preenchimento da maioria das vagas, profissionais com um grau de especialização menor e muitas vezes com um nível de escolaridade mais baixo. A estrutura da economia formada principalmente por micro e pequenas empresas também ajuda a explicar o cenário, tendo em vista o controle de despesas maior em empresas enquadradas nessas categorias, observa o professor de Políticas e Tendências Econômicas da Faculdade de Natal (FAL), Otomar Lopes Cardoso Júnior.

Extrativa

Ao todo, oito atividades são consideradas na pesquisa do Ministério, incluindo na lista a administração pública, que ostenta no estado o maior salário de admissão. No âmbito do setor privado, a  atividade que paga o melhor salário incial é a extrativa mineral. “É o efeito Petrobras, incluindo as vagas indiretas e as terceirizadas”, avalia Lopes.

A  realidade potiguar, em relação ás atividades que melhor pagam, não é tão distante das encontradas no Brasil e em São Paulo, estado mais industrializado do país. “O perfil e a estrutura de salários no início de carreira é muito parecido. Os valores é que mudam”, continua ele, acrescentando que nacionalmente e em São Paulo as atividades  extrativa mineral e o serviço público  estão no topo das que oferecem  os maiores salários inciais. Regionalmente, as maiores médias de valores prevalecem na atividade extrativa mineral também nos estados do Maranhão, Sergipe e Alagoas.

Nos casos de Pernambuco, Ceará e Piauí, ganha mais quem abocanha uma vaga na construção civil. Na Paraíba, as melhores oportunidades salariais estão nos serviços industriais de utilidade pública. Na contramão disso, os salários mais baixos, com exceção do que ocorre no Piauí e em Alagoas,  são encontrados na agropecuária.  No Rio Grande do Norte, a média de admissão na área é de 577,66 a menor entre as atividades.  No país é de R$ 634,50 e em São Paulo é de R$ 634,58, também os valores de admissão mais baixos.

“O trabalhador entra ganhando pouco, mas ao longo do tempo a tendência é que o rendimento médio dele melhore”, diz o diretor do Departamento de Emprego e Salário do Ministério do Trabalho, Rodolfo Torelly. De acordo com ele, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) mostra que a remuneração média do trabalhador potiguar subiu de de R$ 1.206,09 para R$ 1.268,45, entre 2008 e 2009. No ano passado, a média foi a terceira maior do Nordeste, atrás das registradas na Bahia (R$ 1.302,94) e em Sergipe (R$ 1.419,06). O valor também ficou acima da média de R$ 1.236,26 da região.

Agropecuária paga piores salários do RN

A indústria extrativa mineral puxa a média salarial do Rio Grande do Norte, mas o valor médio de admissão no estado sofre a pressão da atividade agrícola. O setor, que acelera as contratações em épocas de safra, geralmente absorve mão de obra sem exigir tantos pré-requisitos ou qualificação. “O trabalhador da agropecuária é muitas vezes analfabeto e só precisa ter disposição e saúde para trabalhar no campo”, explica o diretor da Cooperativa dos Fruticultores da Bacia Potiguar (Coopyfrutas), que reune  empresas e produtores dos municípios de Mossoró e Baraúna, Francisco Vieira da Costa. “Por outro lado, os que têm grau de instrução maior, como técnicos agrícolas e engenheiros agrônomos, chegam a ganhar em torno de R$ 5 mil ou R$ 10 mil”.

Os trabalhadores com mais qualificação são, no entanto, minoria. Representam cerca de 10%, apenas, dos que estão em atividade nas empresas do setor, segundo Vieira. “Você contrata um engenheiro agrônomo para 300 trabalhadores braçais”, exemplifica ele. O piso salarial da categoria está, no entanto, acima do salário mínimo e é negociado entre os sindicatos das empresas e dos trabalhadores. O cargo desempenhado dentro das empresas, evidentemente, também influencia na média de admissão. Um tratorista, por exemplo, pode ganhar cerca de R$ 680. Enquanto um auxiliar de colheita, que coordena o grupo responsável pela função, pode ter uma média de R$ 1.200. Mas independentemente de os valores serem baixos ou não, a geração de empregos com carteira assinada no setor é um ganho, diz Otomar Junior. “Isso porque você tem empregos que asseguram direitos ao trabalhador”, diz. “E que inibem a ida desse trabalhador para a cidade grande”, diz Vieira.

Na indústria, em que o forte é a produção de alimentos, de confecção e de têxteis, por exemplo, a demanda predominante por profissionais com menos qualificação também ajuda a explicar a oferta de salário inicial dos trabalhadores (veja o quadro). “São setores intensivos em mão de obra, que absorvem muita gente, mas que são pouco exigentes em qualificação. A indústria cerâmica e até mesmo a de extração de minerais, que estão na zona rural, são capazes de absorver até trabalhadores analfabetos”, diz o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte, Flávio Azevedo. “Além disso, nossa economia é pequena. Temos dentro da indústria 92% das empresas enquadradas como micro e pequenas empresas e a micro e pequena empresa têm como empregadas pessoas que estão mais na base da pirâmide, exigem, por exemplo, menos técnicos de nível médio e com nível superior”, observa ainda o presidente.

Ensino superior não traz garantias

Quem tem ensino superior completo ganha mais no Rio Grande do Norte, mas não é sempre que maior grau de escolaridade significa mais dinheiro no bolso. Em alguns setores, como extração de minerais, indústria de transformação e comércio há trabalhadores com ensino fundamental ou médio incompletos que ganham menos que um analfabeto. “Isso pode ter várias explicações”, diz o diretor do Departamento de Emprego e Salário do Ministério do Trabalho, Rodolfo Torelly.

De acordo com ele, uma das razões para a “contradição” é a função que o trabalhador está exercendo. “Ele (o trabalhador com menor grau de instrução) pode ter sido contratado para uma vaga que tem carga horária maior, um nível de estresse mais elevado ou que ofereça mais riscos”, diz. “Mas, regra geral, cada vez mais a escolaridade e o nível de profissionalização dele vão pesar na hora de conquistar uma vaga”. Ele acrescenta que no Nordeste, região que concentra os mais baixos salários de admissão do país, o custo de vida mais baixo acaba compensando. “Principalmente para as camadas mais baixas esse é um fator que pesa muito”, acrescenta. Otomar Lopes Cardoso Junior também observa que o custo de vida menor acaba influenciando os valores pagos no mercado. “Muitas indústrias se instalam na região em busca de redução de custos. Elas buscam pessoas que ganham pouco, que têm custo de vida mais baixo”, argumenta.

Contexto salarial deverá passar por mudanças

Na visão de analistas, o atual contexto salarial do Rio Grande do Norte deverá passar por mudanças nos próximos anos, influenciado por fatores como a criação das Zonas de Processamento de Exportação, as ZPEs, e com os investimentos previstos para a Copa do Mundo de 2014, por exemplo. “Isso vai aumentar a demanda por qualidade superior de mão de obra não só na área da construção, mas também na estrutura de segmentos como a hotelaria, o setor de serviços”, diz Otomar Junior, da FAL.

O presidente da Federação das Indústrias do estado, Flávio Azevedo, complementa. “Na hora em que vão chegar novos empreendimentos, como o novo aeroporto, as ZPEs, novas indústrias de cimento, na hora em que aumenta esse tipo de indústria, em que começam a funcionar novos negócios, nossa demanda em termos de recursos humanos, da qualidade dos recursos humanos, aumenta também. Quanto maior for a demanda e a qualificação da mão de obra maiores serão os salários”.

Para o presidente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil, Antônio Neto, os salários de admissão ainda são baixos no país, mas vêm evoluindo com a valorização do salário mínimo. “Os sindicatos precisam, no entanto continuar na luta para que seus pisos salariais cresçam”.

Atualmente, a média dos salários de admissão no Rio Grande do Norte está abaixo das registradas em outros estados, mas  os somatórios desses salários têm conseguido servir de fermento para elevar  o consumo. “Individualmente a receita é baixa, mas coletivamente ela tem feito girar a economia. A massa está movendo a economia”, observa Lopes Júnior, da FAL.

Outra analista ouvida pela reportagem diz, no entanto, que o comércio, por exemplo, poderia ser ainda mais dinâmico, caso os valores pagos no mercado de trabalho fossem mais elevados.  “E a medida que você aumenta os salários você também atrai mais empreendimentos. O investidor, de uma maneira geral, quando está prospectando áreas para investir, olha em primeiro lugar o mercado. O tamanho da população, a média salarial, como está distribuída a renda. Se não tiver mercado ele não fica”, diz.