Há 30 anos, trabalhadores/as desafiavam a repressão militar na primeira greve geral em plena ditadura
20 de julho de 2013 | Autor: CUT Nacional
Fonte: CUT Nacional

Escrito por: William Pedreira com colaboração do Cedoc/CUT

Enquanto a classe trabalhadora se organizava para fundar a maior central sindical do Brasil, greves e mobilizações contra a política econômica ditada pelo regime militar pipocavam por todo o País.

O ano era 1983. Havia total submissão da política econômica brasileira ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e banqueiros internacionais. A estratégia adotada pelos países imperialistas e pelo sistema financeiro internacional visava direcionar as consequências da crise para os países subdesenvolvidos, em particular ao Brasil.

Todo este processo resultou em milhões de trabalhadores sem emprego ou subempregados, achatamento do poder aquisitivo dos salários, altas taxas de juros alimentando a especulação financeira, salário mínimo equivalia a menos de um terço das necessidades básicas do trabalhador e sua família, paralisação e destruição da indústria brasileira e a mais completa desnacionalização da economia e das riquezas nacionais.

Decretos afundam ainda mais o País - o governo militar, sob o comando do general João Baptista Figueiredo, direcionava a política econômica a partir das diretrizes delineadas pelo então ministro do Planejamento Delfim Netto, o czar da economia dos militares.

Frente à crise do balanço de pagamentos, resultado da imensa dívida externa acumulada pela ditadura militar (quase US$100 bilhões), Delfim orientou o governo a seguir fielmente a política ortodoxa do FMI para negociar uma saída que superasse a crise sem ferir os interesses dos banqueiros internacionais e das classes dominantes.

A inflação acumulada em 1982 chegou ao patamar de 100% ao ano. À época, Delfim Netto, anunciou um empréstimo de US$4,4 bilhões junto ao FMI, assinando uma nova ‘carta de intenções’ onde o País assumiria novos compromissos com a recessão, o desemprego e o arrocho salarial.

Seguiram-se assim sucessivas alterações na política econômica e salarial. Somente no primeiro semestre de 1983 foram editados quatro decretos-lei - 2.012, 2.024, 2.036, e 2.045 -, cujo objetivo era impor novos critérios de redução dos salários.
Pelo primeiro decreto, de número 2.012, enviado pelo Executivo ao Congresso em 24 de fevereiro, os reajustes passariam a se dar da seguinte forma: 100% do INPC para a faixa de até três salários mínimos; 95% entre três e sete salários; 80% de sete a 15 salários e 50% de 15 a 20 salários.

Rejeitado pelo Congresso, foi substituído em junho pelo Decreto-Lei 2.024. Diante de mais uma rejeição, em julho do mesmo ano surgia o Decreto-Lei 2.045 que suspendeu a correção salarial por faixas de remuneração, restringindo os reajustes a 80% da variação do INPC semestral.

O regime militar, juntamente com FMI e setores do grande empresariado, iniciou também uma campanha de depreciação das empresas estatais, apontando-as como ineficientes e responsáveis pelo aumento do déficit público.

Tal campanha possuía apenas um objetivo: a desnacionalização das empresas públicas. Nesta toada, o governo instituiu o decreto 2.036, conhecido como Pacote das Estatais, que atingiu duramente os trabalhadores com a suspensão das promoções, limite de remuneração mensal para os servidores, a completa subordinação da política de remuneração ao CNPS (Conselho Nacional de Política Salarial) e o esvaziamento do papel dos sindicatos no setor com a perspectiva de demissões e rotatividade.

Greve geral é o caminho – em um cenário de crise e profunda miséria que desolava a maioria da população, com um governo antidemocrático e antinacional praticando drásticos cortes nos investimentos públicos, a passagem dos anos 70-80 foi marcada por um ciclo de lutas populares, sindicais e políticas.
Pouco antes da greve geral, os petroleiros haviam organizado uma paralisação das atividades no dia 6 de julho contra o entreguismo do governo ao FMI e pela soberania nacional e garantia de direitos.

A resposta da repressão militar foi imediata: intervenção no Sindipetro de Campinas e Paulínia e no Sindicato dos Petroleiros da Bahia, com demissões de centenas de trabalhadores. Por prestar solidariedade ao movimento e aos companheiros grevistas, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema também foi vítima de mais uma intervenção.

O movimento dos petroleiros teve papel relevante ao impulsionar a classe trabalhadora para uma greve geral que abrangesse todas as categorias.
As lutas contra os decretos-leis foram levadas a cabo pela Comissão Nacional Pró-CUT. A greve geral do dia 21 de julho de 1983 foi o caminho encontrado pelo conjunto da classe trabalhadora em resposta a repressão e à política econômica aplicada pela ditadura militar.

De acordo com avaliações de membros da Comissão Nacional Pró-CUT a partir de levantamentos realizados nos Estados, cerca de 138 entidades participaram do movimento grevista, o primeiro no regime militar, chamado de Dia Nacional de Greve com Manifestações. Contou com adesão direta de mais de dois milhões de trabalhadores/as do setor público e privado e outras 40 milhões de pessoas tiveram atividades afetadas, principalmente por paralisações nos meios de transporte.
Com a greve, a classe trabalhadora expressava seu repúdio contra todo e qualquer pacote ou medida que serviam apenas para alimentar a especulação e aumentar ainda mais a exploração e a miséria.

A prioridade para o desenvolvimento, destacavam os manifestantes, passava pelo fortalecimento do mercado interno, com redução das taxas de juros e moratória da dívida externa, pondo fim a especulação financeira e permitindo a aplicação dos recursos públicos em setores vitais para a maioria da população, extinguindo, assim, a verdadeira fonte de inflação e desemprego.

No livro ‘Nasce a CUT’, Jair Meneguelli, que integrava a Comissão Nacional Pró-CUT e foi primeiro presidente da Central, recorda “que a greve geral contra a mais sórdida política de arrocho salarial praticada por um governo não apenas colocou o movimento sindical em um caminho sem volta, ao impor as condições políticas para que fundássemos a Central, mas também contribuiu para que as lideranças sindicais dessem um salto para o futuro, ao perceberem que as lutas isoladas de suas categorias não eram suficientes para mudar coisa alguma. Descobriram que era preciso superar as práticas corporativas e apostar na organização da classe trabalhadora.”

Gilmar Carneiro, outro companheiro que integrou a Comissão Nacional Pró-CUT e na época ocupava a vice-presidência do Sindicato dos Bancários de São Paulo, relata que para limitar o poder de mobilização e atingir diretamente a organização dos trabalhadores, o governo federal interveio nos sindicatos dos metroviários e bancários de São Paulo.

A intervenção nos bancários durou mais de 20 meses, até 1985. Todos os dirigentes foram cassados. A ditadura colocou como interventores representantes dos bancos, sem compromisso com as questões sociais, que transformaram o sindicato em uma entidade quase exclusivamente assistencialista, apenas homologatória das vontades dos patrões e do governo.

“O governo avaliava que mantendo os sindicatos sob intervenção conseguiria enfraquecer a greve, mas pelo contrário, o que se viu foi à radicalização do movimento. E mesmo colocando o patrão pra tomar conta do sindicato nós mantivemos a Folha Bancária durante o período de intervenção”, lembra Gilmar Carneiro, observando que a greve serviu como aglutinadora e colaborou para a construção do Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, em agosto de 1983, com a participação de mais de cinco mil pessoas, homens e mulheres, do campo e da cidade, quando foi fundada a Central Única dos Trabalhadores.

“No dia 28 de agosto os cinco sindicatos ainda estavam sob intervenção. À medida que o governo tomava essas atitudes, surgiu a necessidade da autoafirmação, de fazer a CUT independente e autônoma perante ao Estado e ao governo”, destaca Gilmar.

Assim, nasceu a CUT, combatendo o modelo sindical oficial, corporativo, dependente do Estado e lutando pela liberdade e autonomia sindical para consolidar um sindicalismo classista, de luta, de massas e organizado a partir da base.