“Não dá para imaginar o Brasil sem a CUT”
20 de agosto de 2013 | Autor: CUT Nacional
Fonte: CUT Nacional

    Na segunda parte da entrevista concedida ao Portal sobre os 30 anos da CUT, o presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores, Vagner Freitas, afirma que talvez tenha faltado mais ousadia ao movimento sindical para aproveitar o crescimento econômico e o governo de um ex-operário para garantir mais conquistas à classe trabalhadora. Para, o dirigente cutista, a Política de Valorização do Salário Mínimo é um dos grandes legados da CUT aos trabalhadores, assim como a eleição do projeto progressista com Lula e Dilma na Presidência da República. O dirigente elenca outras vitórias, como a redução da jornada para 44 horas, a aprovação da PEC das Domésticas, a PLR, mas admite que ainda falta muito a conquistar. Aponta a necessidade de renovação do movimento sindical e critica a ‘grande imprensa’ por tentar carimbar a CUT como pelega e governista e vê nessa ação a forma que a mídia achou “para desqualificar nossas conquistas e defender os interesses da elite”. Vagner Freitas faz questão de ressaltar que os sindicatos são a razão de existir e a força da CUT, porque representam a vontade do trabalhador, mas adverte que eles têm de priorizar temas essenciais como saúde, educação e transporte em suas pautas. E justifica: o trabalhador gasta parte do aumento salarial que conquista todos os anos em serviços privados por conta da precariedade dos públicos. Por isso os sindicatos, completa, não podem mais restringir sua ação à campanha salarial e a pauta específica da classe trabalhadora. Segue abaixo a entrevista. A terceira e última parte será publicada na sexta-feira (23).

 

PORTAL – A CUT e o movimento sindical conseguiram aproveitar a maior abertura e espaço proporcionados por governos progressistas?

VAGNER FREITAS- Talvez nós, dirigentes sindicais, não tenhamos conseguido entender o que estamos vivendo desde 2003 e, por isso, não adotamos uma postura que nos permitisse mais conquistas de pautas advindas dos próprios sindicatos. Uma parcela do nosso movimento sindical continuou e continua, durante os governos Lula e Dilma, que têm outras conjuntura e características, fazendo movimento sindical como era feito no governo FHC. Faltou, talvez, mais ousadia da nossa parte para aproveitar o momento de crescimento econômico do País, com um operário na Presidência da República que abiu diálogo com movimento social, para conquistar mais mudanças do que conquistamos.

PORTAL – E por que isso – essa falta de entendimento e de ousadia - aconteceu?

VAGNER FREITAS -Creio que, como nós não renovamos o movimento sindical, tem muita gente com a trajetória e a cabeça lá atrás, que não conseguiu ver o que acontecia naquele momento. Durante os últimos anos, não tivemos nenhum problema em fazer enfrentamento com os governos Lula e Dilma. Fizemos muitos e, parte deles, não era por pauta pré-determinada de maneira que pudéssemos avançar, era enfrentamento como sempre foi feito. O nosso problema foi construir consensos e isso se faz em um governo democrático e popular, com uma economia em crescimento, porque não é possível fazer essa construção durante um governo neoliberal e com a economia fraca, como era antes.

PORTAL – Você diria, então, que foi uma das maiores conquistas da CUT em seus 30 anos, do movimento sindical e da classe trabalhadora a eleição de Lula/Dilma à Presidência da República em favor de um projeto progressista?

VAGNER FREITAS –Com certeza. Eleger um governo progressista foi uma das conquistas da CUT, do movimento sindical e de uma luta longa. Nós, às vezes, esquecemos o fato de termos conseguido ser uma opção de governo dos trabalhadores e para os trabalhadores que deu certo e que é uma vitória do nosso projeto. Por isso, eu disse antes que podíamos ter feito outras coisas durante esses últimos 10 anos. Mas ainda dá tempo.

PORTAL – Apontar a eleição de um governo progressista como uma das conquistas da CUT é coerente, mas reforça a fala de quem acha a Central governista. Que papel a ‘grande mídia’ teve nesse processo de tentar carimbar a CUT como pelega?

VAGNER FREITAS- A imprensa nos chama de pelegos, chapa branca, governista, pau mandado do Lula, pau mandado do PT para tentar desqualificar nossas conquistas que foram muitas e importantes. Mas isso que a grande mídia faz é parte da luta ideológica que tem objetivo de defender os interesses de setores da elite.

PORTAL – Além da eleição de um operário e de uma mulher para presidir o Brasil, o que você considera como grande conquista nesse período?

VAGNER FREITAS - A Política de Valorização do Salário Mínimo, por ter uma influência na cadeia econômica muito grande, importantíssima. Pela primeira vez, o salário mínimo foi discutido e negociado com a CUT e o movimento sindical. Antes, essa discussão era feita entre o governo federal e o Legislativo, sem a participação da sociedade e, muito menos, dos trabalhadores. A política de valorização do salário mínimo é resultado de um acordo feito com a CUT e centrais e referendado pelo Congresso Nacional. É o maior acordo salarial do mundo, que vai além dos termos econômicos, porque foi firmado entre partes e com o trabalhador participando. Esse é um de grandes legados da CUT para a classe trabalhadora nos últimos tempos.


PORTAL - Por que outras reivindicações importantes para a classe trabalhadora brasileira, como a do fim do fator previdenciário, não vingaram, não deram certo como a valorização do salário mínimo?

VAGNER FREITAS –Nós (a CUT e demais centrais) quase fechamos um acordo relativo ao fator previdenciário. Chegamos a discutir nas reuniões do Fórum das Centrais que a fórmula85/95, se não estabelecia o fim do fator, era extremamente importante porque reduzia as perdas. Não recuperava os cinco anos, mas reconquistava pelo menos 40% do que o governo FHC havia tirado dos trabalhadores.

"Nossos sindicatos, que são instrumentos
de luta importantíssimos, não podem,
ao longo do ano, se preocupar apenas durante
dois meses com campanha salarial
e nos outros dez meses não ter claro o que fazer”

PORTAL - Por que a negociação e o acordo da fórmula 85/95 não vingaram?

VAGNER FREITAS - Porque não houve consenso entre as centrais. A CUT tirou posição favorável, mas faltou consenso.  É importante que a Central resgate a negociação da fórmula 85/95 como foi feita com o ex-presidente Lula e que tente, de novo, construir a unidade entre as centrais.

PORTAL – Além da valorização do salário mínimo, quais são, na sua visão, as outras principais conquistas dessas três décadas de ação da CUT?

VAGNER FREITAS – Foram inúmeras e grandes conquistas. A redução da jornada de 48 para 44 horas semanais na Constituinte; a participação nos lucros e resultados; a melhoria das condições de trabalho com várias regulamentações na área da saúde do trabalhador, direitos dos trabalhadores no campo, a aprovação da PEC (Projeto de Emenda Constitucional) do trabalho doméstico. Tem as conquistas de todas as lutas nos sindicatos, que também são da CUT, como melhorias das condições de trabalho específicas e da legislação de proteção. Mas ainda há muitas outras lutas a fazer: pela redução da jornada de trabalho para 40 horas sem redução de salário, uma das principais batalhas atuais da CUT - que vai aquecer a economia e gerar 2,2 milhões de empregos, além de satisfação pessoal por garantir aos trabalhadores  uma vida pessoal, familiar e profissional mais digna. A tarefa da CUT é também melhorar a vida da classe trabalhadora fora do local de trabalho, como cidadão que tem direito a serviços básicos públicos e de qualidade, como a universalização da saúde. É por isso que a redução da jornada de trabalho não pode ser vista como uma conquista somente do trabalhador, mas sim de toda a sociedade. Também lutamos contra o projeto que amplia a terceirização e a precarização, pelo direito à organização no local de trabalho e pela igualdade de direitos independentemente de gênero, cor e raça.


PORTAL – Desde os anos 1990, a CUT e os sindicatos passaram a ter essa ação “cidadã”, com pautas e lutas que vão além das questões do local de trabalho e sindicais. Isso tem aumentado?

VAGNER FREITAS – Sem dúvida. Por conta dessa concepção, o papel dos sindicatos não está mais restrito à pauta da classe trabalhadora, às campanhas sindicais. Essa é uma das grandes lições que as ruas trouxeram em junho, quando as manifestações revelaram o descontentamento enorme que a sociedade tem com a estrutura do Estado, que não funciona. Em 10 anos sabíamos que não seria possível transformar uma estrutura organizada para ser excludente há séculos, porque o Estado brasileiro foi concebido para excluir e ser propriedade da burguesia e não da sociedade e do trabalhador. Nós queremos e vamos mudar isso. Só que não é possível em uma década. Porém, não é admissível que não tenhamos educação, transporte e saúde como deveres e financiados pelo Estado e como direito do cidadão. Isso tem de ser efetivamente uma construção feita pela sociedade.

PORTAL – Essas novas demandas vindas das ruas, especialmente da juventude, o que representam para a CUT?

VAGNER FREITAS– Aí o movimento sindical também tem de evoluir muito. É verdade que as questões da defesa do transporte coletivo, da educação e saúde públicas de qualidade fazem parte da nossa pauta, mas essas reivindicações não são consideradas essenciais. Elas têm de deixar de integrar a pauta somente como motivação da ação sindical e virar prioridade. Por exemplo: os sindicatos, em suas campanhas salariais, além de discutir emprego, salário, PLR, precisam incluir essas questões nas suas pautas e debater com o empresariado e a sociedade. Dizer que já estão pautadas é fácil. Basta colocar na lista junto com 55 outros itens e pronto. Mas ao longo do ano, o que a gente faz para que, efetivamente, esses temas virem conquistas? Para isso, essas demandas têm de ser colocadas e tratadas como essenciais e prioritárias pelo movimento sindical.

"A Central Única dos Trabalhadores
é a história e a trajetória
de luta dos seus sindicatos.
É esse o significado de
Somos fortes, Somos CUT"


PORTAL – Na sua opinião, o que é CUT representa para os trabalhadores?

VAGNER FREITAS – O Lula disse algo muito importante no lançamento das comemorações oficiais dos 30 anos da CUT: “Imaginem o Brasil sem a CUT, como seria?” De fato, a nossa Central representou e representa até hoje a possibilidade concreta de melhoria da vida do/a trabalhador/a em muitos aspectos. A classe trabalhadora foi colocada no cenário político do País como protagonista. Quando viajo pelos Estados vejo isso. Em cada canto do Brasil, tem um sindicato cutista lutando; tem uma CUT Estadual organizando a luta.  É inegável que ainda temos muito que construir com os nossos sindicatos nessa concepção, porque a CUT não é somente a sua Executiva Nacional. A CUT são todos os seus mais de três mil sindicatos filiados, uma estrutura que vem fundamentalmente da organização no local de trabalho, nas fabricas, bancos, escolas, hospitais. Somos uma central de base e de massa. Ninguém se filia à CUT, mas sim ao sindicato e é por meio dele que o trabalhador se manifesta e se faz representar. A Central é a história e a trajetória de luta dos seus sindicatos.  É esse o significado de Somos fortes, Somos CUT.

PORTAL – Certo, mas qual seria então o papel da CUT como uma central sindical?

VAGNER FREITAS –É preciso ter a ação organizada pelos sindicatos porque a nós, central sindical irradiar de política nossos sindicatos. É papel nosso fazer formação política, formação sindical, estar preocupado com a transformação do mundo do trabalho, com a luta e preparação da Central para que ela esteja à frente do nosso tempo. Cabe à CUT manter relacionamento com as demais centrais do Brasil e do mundo e trazer ao País o que é importante para melhorar a vida dos/as trabalhadores/as brasileiros/as. Acima de tudo, uma central precisa ser parte dessa estrutura que constrói a organização da classe trabalhadora, que dá voz e protagonismo ao conjunto dos sindicatos e dos trabalhadores na sociedade e no País para conquistar as nossas reivindicações imediatas e históricas.

PORTAL – Dê exemplos?

VAGNER FREITAS –Não tem como um sindicato fazer as lutas referentes à mudança da estrutura do Estado para garantir um transporte público de qualidade em uma cidade como São Paulo sem discutir mobilidade urbana, porque o trabalhador chega no local de trabalho cansado, atrasado, devido à má qualidade do transporte coletivo. Essa é uma luta de toda a classe trabalhadora. Os sindicatos não podem deixar os temas da saúde e da educação públicas de qualidade fora da pauta porque o trabalhador gasta seu aumento salarial com os serviços privados. Ele consegue aumento real (média brasileira é de 2% ao ano), fica satisfeito, mas tem de gastar parte desse ganho em convênios médicos. Isso (saúde) não é papel do Estado? Esse ganho salarial deveria ser incorporado ao patrimônio do ganho da classe trabalhadora e não usado para pagar aquilo que o Estado deveria fornecer com o que arrecada de impostos. Outro exemplo: com o resultado das suas campanhas salariais o trabalhador consegue comprar um automóvel, sai do flagelo do trem e do ônibus, mas entra no flagelo do trânsito. Coloca o filho no colégio particular, porque a rede pública é ruim. Os 2% a mais no salário acabam corroídos com gastos em educação e saúde privadas, despesas que ele não deveria ter, pelo menos não 100%.

"Talvez hoje seja mais importante se
 dedicar até o fim a uma luta por saúde e
transporte público de qualidade, que realmente
melhore a vida da sociedade, que a uma campanha
salarial por aumento real que será corroído
por gastos com plano de saúde e escola particular"

PORTAL – Sem essa consciência, mas por causa de problemas como esses, manifestantes foram às ruas em junho protestar contra tudo e todos, chegando, inclusive, a rejeitar a presença de partidos, políticos e até de centrais. Como a CUT viu esse movimento inédito?

VAGNER FREITAS –Dez anos de crescimento econômico, PIB (Produto Interno Bruto) aquecido, sexta economia mundial, País como referência internacional em vários setores. Isso tudo mostra que, da porta para dentro da casa do trabalhador, a vida melhorou muito mesmo. Comprou fogão, geladeira, colocou os filhos na escola particular, comprou carro, voltou à faculdade, mas, da porta da casa dele para fora, a vida ainda é um inferno. Isso acontece porque teve e ainda há um crescimento que demanda mais e melhores estruturas, ou seja, serviço público, eu tem como responsável o Estado brasileiro. Talvez hoje seja muito mais importante se dedicar até o fim a uma luta por transporte público que realmente melhore o patamar de vida a sociedade do que a uma campanha salarial por 2% de aumento real.Essa visão (boa) que a CUT tem, e sempre teve, está mais enfatizada na cabeça dos dirigentes cutistas, principalmente depois das manifestações de junho.

PORTAL – E a CUT está preparada para fazer esse debate com os seus filiados e esses sindicatos têm condições de assimilar e promover essa mudança cultural e de ação?

VAGNER FREITAS - Temos de nos preparar mais. Precisamos apresentar essa demanda, porque essa não é a cultura predominante da CUT. A nossa cultura é a de lutar, enfrentar o patrão e conquistar melhores salários e condições de trabalho. Mas somente isso, hoje, não é mais o suficiente.

PORTAL – E como fazer isso acontecer?
VAGNER FREITAS -Será necessário mudar a estrutura do Estado para disputar com a burguesia um Estado democrático de direito para os trabalhadores e, por isso, os nossos sindicatos, que são instrumentos de luta importantíssimos, não podem, ao longo do ano, se preocupar apenas durante dois meses com campanha salarial e nos outros dez meses não ter claro o quefazer. Tem de lutar durante o ano todo para mudar a estrutura do Estado, organizando o trabalhador para defender os seus direitos fundamentalmente como cidadão, além de operário. Essa é a mudança desejada e o papel de um dirigente cutista que pensa a CUT para daqui a 15, 30 anos. É importante para que, efetivamente, a gente consiga estar além do nosso tempo como estiveram Meneguelli,  Vicentinho, Marinho, Kjeld, Felício, Artur (ex-presidentes da CUT).