Fórum Social Mundial: entre a radicalização e a pluralidade
26 de janeiro de 2010 Fonte: O Globo

Os principais movimentos sociais brasileiros defenderam nesta segunda-feira uma radicalização do Fórum Social Mundial (FSM). A proposta dividiu o Fórum, que funciona há dez anos apenas como espaço aberto de articulações das esquerdas mundiais. A CUT e o MST, co-fundadores do Fórum, estão alinhados a correntes de intelectuais e apoiados por partidos políticos como o PT. A ideia é pressionar, até transformar o FSM em um movimento mundial de massas, contra o neoliberalismo e o imperialismo. Parte dos organizadores, no entanto, adianta que não permitirá a mudança, que significaria um retrocesso à estratégia esquerdista do século passado, já derrotada pela "maldição" da divisão. ( Está no Fórum? Envie seu relato )

- Nós avaliamos que corremos um sério risco de retrocesso da esquerda. Ninguém aqui defende pegar em armas, mas se não fizermos grandes mobilizações de massa, não haverá como enfrentar mais nada. Temos que começar a marcar gols - disse João Felício, representante da CUT.


    " Ninguém aqui defende pegar em armas, mas se não fizermos grandes mobilizações de massa, não haverá como enfrentar mais nada "

Proposta contraria carta de fundação do Fórum

O futebol também norteou a fala de João Pedro Stédile, do MST e da internacional camponesa Via Campesina:

- Derrotamos a ideia do estado mínimo, mas os capitalistas voltaram a usar o estado para se rearticular. Vou comparar a um jogo de futebol: o FSM tem sido o vestiário, a concentração. O jogo se decide no campo; é lá que nós, os movimentos, estamos. Agora o Fórum precisa nos ajudar mais, para não perdermos o jogo - disse Stédile, admitindo que os movimentos têm perdido sua capacidade de mobilização.

A proposta contraria o único consenso mundial do FSM, a Carta de Princípios, que diz que o Fórum "não pretende ser uma instância representativa da sociedade civil mundial". Segundo Stédile, o Fórum não pode ser "uma reunião de sabidos" para definir regras para os outros, nem cair no democratismo.

    " A situação está muito grave, com a maioria dos governos do mundo à direita "

- Temos que ter um programa não só antineoliberal, mas anti-imperialista. A situação está muito grave, com a maioria dos governos do mundo à direita. Até aqui em Porto Alegre, berço do Fórum Social, temos hoje um governo de direita, um governo fascista que é o de Yeda Crucius (PSDB) - disse Stédile.

O representante do MST e o da CUT afirmaram que a esquerda vive uma profunda crise ideológica. Stédile afirmou que os movimentos perderam sua capacidade de mobilização.

Lula e Dilma participam nesta terça de evento

Os dois líderes foram aplaudidos, mas nem todos concordaram com eles.

- É o velho povo da política velha da esquerda que fica embaixo da mesa o tempo todo. O FSM é mesmo um longo processo de educação política. O Fórum defende uma política diferente dos partidos, das decisões centralizadas. Colocar uma perna a mais no Fórum, como querem, é paralisá-lo - reagiu Chico Whitaker, um dos fundadores.

Whitaker lembrou que, em 2005, parte dos mesmos intelectuais que respaldam a proposta dos movimentos propuseram uma unidade no Fórum. Oded Grajew e Cândido Grzybowksi, fundadores do FSM, querem a manutenção do FSM como espaço aberto, e reagiram.

- O Fórum termina e quem leva a vida adiante são as entidades. As organizações que querem esse movimento devem se juntar e realmente fazer isso - disse Oded.

- O Fórum consegue ser uma usina de ideias. Mas tem limitações. Não é possível fazer que o Fórum seja o que as nossas organizações precisam ser - discursou Grzybowski.

A primeira etapa do seminário de balanço do Fórum terminou com o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, tentando equilibrar a polêmica:

- Temos que construir uma centralidade sem centralismos.

Nesta terça-feira, o presidente Lula e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, participam de um evento no Ginásio do Gigantinho.