Alimentação continua a pressionar a inflação
11 de março de 2010 | Autor: Dieese
Fonte: Dieese

O aumento do Índice do Custo de Vida (ICV) calculado pelo DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Socioeconômico foi, em fevereiro, de 0,59%, uma taxa 1,13 ponto percentual (pp) menor que a apurada em janeiro (1,72%). A Alimentação foi o principal fator de pressão, pois teve alta de 1,19% e contribuiu com 0,33pp para a inflação do mês.

Além dos alimentos, os grupos que registraram os maiores aumentos foram: Habitação (0,87%) e Transporte (0,41%). Estes dois grupos, mais a Alimentação tiveram contribuição conjunta de 0,60 pp, no cálculo da taxa de fevereiro, enquanto os grupos Equipamento Doméstico (-0,29%) e Vestuário (-0,79%) colaboraram negativamente com -0,03 pp.

O aumento nos preços da Alimentação (1,19%) resultou de taxas distintas entre seus subgrupos: 1,91% para os produtos in natura e semielaborados; 0,82% na indústria alimentícia e 0,28%, no caso da alimentação fora do domicílio.

Dentre os produtos in natura e semielaborados, as principais alterações de preços ocorreram para:

• Hortaliças (13,96%) – a alta foi generalizada, atingindo todos seus produtos, como consequência das fortes chuvas ocorridas no início de 2010;

• Legumes (8,25%) – aumentos acentuados foram apurados para o chuchu (32,15%), tomate (13,50%) e pimentão (10,44%);

• Frutas (6,19%) – houve elevação no preço da laranja (10,12%) e fortes quedas na pêra (-11,69%), maçã (-7,38%) e limão (-5,22%);

• Grãos (2,68%) – com alta no arroz (4,28%) e queda no feijão (-2,07%) e

• Raízes e Tubérculos (-0,96%) – foram apuradas retrações para a cebola (-5,37%), mandioca (-4,23%) e batata (-1,08%).

No subgrupo da indústria da alimentação (0,82%) merece destaque a alta no açúcar (10,44%) e no leite longa vida (5,54%) e a queda nos óleos (-2,58%). A alimentação fora do domicílio (0,28%) manteve-se relativamente estável, com taxas semelhantes em seus subgrupos: refeição principal (0,23%) e lanches (0,36%).

O segundo grupo que mais pressionou a inflação, em fevereiro, foi Habitação (0,87%) com contribuição de 0,20pp no cálculo da taxa deste mês. Seus subgrupos tiveram alta diferenciada, a maior verificada para locação, impostos e condomínio, com 1,24%, consequência, principalmente, do aumento no condomínio (4,33%); a operação do domicílio subiu 0,87%, devido ao reajuste dos salários dos empregados domésticos (4,45%); e a conservação do domicílio (0,17%) teve pouca alteração em seus valores.

A elevação apurada para o grupo Transporte (0,41%), em fevereiro, foi abaixo da inflação, mas ainda assim, contribuiu com 0,07 pp no cálculo da taxa de fevereiro. Foram observadas taxas altas em ambos os seus subgrupos: coletivo (0,28%), com aumento nas tarifas de metrô e trem a partir da 2ª semana de fevereiro; e transporte individual (0,47%) resultado do aumento dos combustíveis (1,27%), que continuam tendo reajuste em seus valores.

Nos grupos Vestuário (-0,79%) e Equipamento Doméstico (-0,29%) as quedas ocorreram em praticamente todos os subgrupos, tais como: rouparia (-0,81%), calçados (-0,74%), móveis (-0,71%), roupas (-0,70%) e utensílios (-0,32%).

 

Índices por estrato de renda

Além do índice geral, o DIEESE calcula ainda mais três indicadores de inflação, segundo tercis da renda das famílias paulistanas. Em fevereiro, as taxas por estrato de renda foram relativamente, semelhantes: de 0,61%, para o estrato 1; 0,63%, para o 2; e 0,58%, para o 3. O estrato 1 corresponde à estrutura de gastos de 1/3 das famílias mais pobres (renda média = R$ 377,49∗); o estrato 2 contempla os gastos das famílias com nível intermediário de rendimento (renda média = R$ 934,17*) e o 3º estrato reúne aquelas de maior poder aquisitivo (renda média = R$ 2.792,90*).

Quando comparadas às taxas de janeiro, todos os estratos de renda apresentaram, em fevereiro, variações menores, com reduções mais acentuadas para o 2º (-1,19 pp) e 3º (-1,14 pp) estratos e menor para o 1º (-0,91 pp).

Apesar de as taxas registrarem valores semelhantes, ao se desagregar os grupos do índice para cada estrato, são percebidos diferentes impactos, de acordo com o poder aquisitivo das famílias.

Os reajustes na Alimentação – que, em grande parte, tiveram origem nos produtos in natura e

semielaborados - afetaram mais as famílias de menor nível de rendimento, devido ao peso deste subgrupo na composição de seus orçamentos domésticos. Assim, as contribuições nos cálculos das taxas por estrato de renda apresentaram uma correlação negativa em relação ao poder aquisitivo das famílias, sendo maior para as mais pobres – taxa de 0,51 pp para o estrato 1, e reduzindo para os estratos 2 (0,45 pp) e 3 (0,24 pp).

Comportamento inverso foi observado na Habitação, ou seja, à medida que a renda cresce as famílias foram mais afetadas pelos aumentos ocorridos nos condomínios e nos serviços domésticos. Em fevereiro, as contribuições por estrato de renda foram crescentes com o poder aquisitivo: 0,08 pp para o 1º; 0,11 pp para o 2º; e 0,26 pp, para o 3º.

A alta ocorrida no Transporte, que teve origem tanto no reajuste dos coletivos (metrô e trem) como no individual devido aos combustíveis, resultou em contribuição maior no cálculo da taxa do 2º estrato de renda (0,08 pp) em comparação aos demais: 1º (0,05 pp) e 3º (0,06 pp). A razão para este comportamento encontra-se na forma como as famílias pertencentes ao segundo estrato distribuem seus gastos, destinando proporcionalmente mais para transporte, tanto coletivo como individual em relação às demais.

Assim, estes três grupos analisados afetaram o cálculo da inflação por estrato de renda de forma distinta. Os demais grupos tiveram poucos impactos nas famílias, não apresentando contribuições diferentes, segundo o seu poder aquisitivo.

 

Inflação Acumulada

Nos últimos 12 meses, de março de 2009 a fevereiro de 2010, o ICV apresentou alta de 5,72%.

Ao se considerar os diferentes estratos, as taxas não são muito distintas: estrato 1, 5,62%; estrato 2, 5,64% e estrato 3, 5,79%. Nos dois primeiros meses deste ano a inflação acumulada é de 2,32%, sendo maior para o 2º estrato de renda (2,46%) e menor para os demais; 3º, alta de 2,31% e 1º, de 2,14%.

 

Comportamento dos preços em 2010

No primeiro bimestre deste ano, os grupos com taxas superiores à inflação (2,32%) foram:

Transporte (5,48%), Educação e Leitura (4,30%) e Alimentação (2,53%). Taxas negativas ou próximas a zero foram observadas nos grupos: Vestuário (-1,26%), Equipamento Doméstico (-0,48%) e Despesas Pessoais (0,36%).

No Transporte, ambos os subgrupos apresentaram taxas acima da inflação: individual (3,19%) e coletivo, com alta acentuada, (11,19%).

O aumento no grupo Educação e Leitura (4,30%), provavelmente, não deve ter influência na inflação nos próximos meses de 2010, pois é apenas no início de cada ano que as escolas – item de maior peso neste grupo – reajustam seus valores.

As elevações ocorridas na Alimentação (2,53%) tiveram origem, principalmente, nos produtos in natura e semielaborados (3,86%), refletindo, de certa forma, as consequências das fortes chuvas ocorridas neste primeiro bimestre de 2010, com taxas elevadas nos seguintes itens: hortaliças (42,68%), legumes (10,62%), grãos (8,13%) e frutas (8,13%). Os demais subgrupos apresentaram taxas menores: produtos da indústria alimentícia (1,17%) e alimentação fora do domicílio (2,13%).

As quedas no Vestuário (-1,26%) e no Equipamento Doméstico (-0,48%) refletem, por sua vez, as liquidações que normalmente ocorrem em todo o início de cada ano. Taxas negativas foram observadas em todos os seus subgrupos, variando de -0,22% nos eletrodomésticos até -1,58% para as roupas.

 

Comportamento dos preços nos últimos 12 meses

Os aumentos verificados neste período deram-se de maneira bastante heterogênea entre os grupos, subgrupos e itens que compõem o ICV-DIEESE. Para uma inflação da ordem de 5,72%, as maiores altas foram apuradas nos grupos: Despesas Pessoais (9,81%), Transporte (8,65%), Habitação (6,21%) e Educação e Leitura (6,17%). Com variações semelhantes ao índice geral, foram observados os grupos: Alimentação (5,26%) e Saúde (5,04%). Taxas negativas foram detectadas nos grupos: Equipamento Doméstico (-2,21%) e Vestuário (-1,70%).

Nas Despesas Pessoais (9,81%), a taxa elevada deve-se ao grande reajuste no subgrupo fumo e acessórios (21,61%), devido ao aumento no cigarro (22,00%). A alta no Transporte (8,65%) foi mais acentuada no subgrupo coletivo (12,19%) e menos para o individual (7,18%).

Na Habitação (6,21%), os aumentos acumulados de seus subgrupos nos últimos 12 meses foram: locação, impostos e condomínio (6,78%), operação do domicílio (6,59%) e conservação (3,70%). As maiores variações foram observadas nos seguintes itens: serviços domésticos (13,58%), gás de botijão (12,29%), condomínio (12,28%) e eletricidade (9,80%). Na Educação e Leitura (6,17%), a maior alta foi detectada no subgrupo educação (6,35%) e a menor para a leitura (3,32%).

Na Alimentação (5,26%), as taxas dos subgrupos produtos in natura e semielaborados (5,89%) e indústria da alimentação (3,27%) foram inferiores às praticadas no subgrupo alimentação fora do domicílio (7,50%). As variações situaram-se entre -34,13% para o feijão até 71,49% para o açúcar.

As despesas com a Saúde subiram 5,04%, resultado de taxas relativamente semelhantes em seus subgrupos, sendo maiores para medicamentos e produtos farmacêuticos (5,94%) e menores para assistência médica (4,83%). Houve deflação nos grupos Equipamento Doméstico (-2,21%) e Vestuário (-1,70%). Dentre seus subgrupos, as maiores quedas foram apuradas para rouparia (-5,17%), eletrodomésticos (-4,60%) e roupas (-2,67%).

 

Inflação de janeiro de 2009 a fevereiro de 2010

Ao estudar as taxas anualizadas de 2010 - em janeiro (5,1%) e fevereiro (5,7%) - nota-se um aumento que se aproxima de 2 pontos percentuais em relação ao patamar inflacionário dos últimos meses de 2009 (4,0%). Porém, ao serem confrontadas com igual período de 2009, elas apontam variações menores que as verificadas em janeiro (5,9%) e fevereiro de 2009 (6,0%), sugerindo um comportamento típico nesta época do ano.

Ao analisar as taxas anuais do ICV-DIEESE verifica-se que na maioria dos grupos, as variações do 1º bimestre de 2009 são superiores às de 2010. Este comportamento foi observado tanto na

Alimentação - que em 2009 apresentava taxa em torno de 8% e agora sua variação situa-se no patamar de 5% - como nos grupos Habitação e Educação, que acumulam, nos últimos 12 meses, taxas menores em 2010 (6,2%) que as de 2009 (7,7%). No grupo Saúde estas variações anuais (em torno de 5,0%) são equivalentes ao se confrontar estes dois meses em 2009 e 2010.

Alguns grupos, porém, registraram comportamento oposto e têm, em 2010, taxas anuais superiores as de igual período em 2009: Despesas Pessoais que passou do patamar de 7,5% para próximo a 10,0% neste ano e Transporte que mudou de 2,0%, em 2009, para algo em torno de 8,5%, sendo que os maiores responsáveis por este salto foram os reajustes nas tarifas do transporte coletivo, que não deverá voltar a exercer pressão na inflação, neste ano.

Para melhor compreender as causas de tais reajustes as séries de taxas mensais foram acumuladas, tomando por base dezembro de 2008. Assim, nos últimos 14 meses, de janeiro de 2009 a fevereiro de 2010, o ICV acumulou alta de 6,5%. Seus grupos não tiveram um comportamento homogêneo, observando-se, em alguns, variações bem acima da inflação, em outros, deflação ou taxas semelhantes ao índice geral.

Os grupos com inflação superior à Taxa Geral foram: Educação (12,4%), Despesas Pessoais

(11,2%) e Transporte (8,9%), grupos que possuem bens e serviços que, normalmente, são reajustados uma vez ao ano, como é o caso das mensalidades escolares e das tarifas do transporte coletivo, e que, portanto, não devem ter seus preços alterados nos próximos 10 meses. Já a alta do cigarro que agravou a taxa das Despesas Pessoais ainda pode sofrer alguma alteração até o final de 2010, porém, não se espera reajuste da ordem de 22% como o praticado em 2009.

Outros grupos acumularam nestes 14 meses variações equivalentes à inflação Geral (6,5%), tais como: Habitação (6,7%), Alimentação (5,5%) e Saúde (5,2%). Outros apresentaram taxas negativas ou bem pequenas como: Vestuário (-3,4%), Equipamento Doméstico (-1,6%) e Recreação (1,4%).
A observação das séries das taxas acumuladas sugere um salto inflacionário neste início de 2010. Porém, após analisar os motivos destas altas é possível afirmar que não há indicações de uma inflação crescente, mas sim de reajustes pontuais, normalmente praticados em cada início de ano e nos próximos meses o patamar de inflação deverá situar-se em torno de 4,5%.